
Antes de dormir fiz questão de botar meu despertador pra tocar mais cedo do que o de costume. Tomei meu rivotril, 1/4 pra ser mais exata, tomei trauma da minha última experiência com um comprimido inteiro. Dormi logo. Tive um daqueles mesmos sonhos de sempre, com as mesmas histórias de sempre, o mesmo final de sempre. Como pode? até meus sonhos caíram na rotina.
O despertador tocou, com a música do Sean k.me avisando que shawty fire burning on the dance floor. Foda-se. Por um minuto eu quis morrer e virar cinzas naquele quarto. Tomei coragem pra abrir os olhos, e tentei sentir meus musculos, pra confirmar que eu poderia dar o primeiro impulso pra levantar, feito. Me embolei pra colocar o chinelo, por conta do meu vício burguês de dormir de meias. Abri a porta do quarto e a luz, mesmo o dia sendo chuvoso, incidiu tão forte nos meus olhos, que cheguei a lacrimejar. Vacilei no primeiro passo após a porta, queria muito ficar no escuro e entrar pra debaixo do meu edredon.
Olhei pra baixo e minha cadelinha mel estava lá, fiel, como todos os dias me esperando pra me acompanhar em todos os comodos da casa. Fui ao banheiro, escovei os dentes,e lavei o rosto, nunca senti a água tão gelada, a ponto de ameaçar a minha sinusite assassina. Olhei pra mel e ela estava lá, sentada, com as orelhas saltadas, com uma expressão de quem parecia estar rindo de mim e dos meus pulinho matinais pra ajudar a acordar. Até hoje creio que ela acha isso no mínimo engraçado demais pra inteligencia dela.
Desci as escadas, degrau por degrau. A mesa de café ainda estava alí, posta. Peguei a minha xícara de café e fui pra varanda ler o jornal. Logo de cara, "Supremo tribunal irá julgar palocci hoje" tava na hora já, não? "rivais de Sarney recorrem ao STF para desarquivar ações." ainda acho que nem deveriam ter sido arquivadas, eu e a torcida do Brasil, né? Logo, parei de ler o jornal. Esse tipo de notícia me dá asco.
Fui pra sala pra poder terminar de ler o livro "Todo o amor" da fabulosa Inês Pedrosa. A primeira coisa que eu lí foi: "Já sabemos tudo um do outro. Este saber inclui muitos capítulos dolorosos, páginas repetidas de desilusão, desastres, um mar de destroços inapagáveis." Logo de cara, me identifiquei, como venho me indentificando desde o começo do livro. Preferi parar de ler, pra não pensar em coisas das quais eu quero fugir.
Fiquei mais um tempo deitada no sofá, e no ipod tocou: "você acertou o pulo quando me encontrou...". Por deus, será que eu não posso nem querer fugir de você, que você me aparece até em música? Logo, desliguei.
Só fechei os olhos.
Minha cadelinha, que estava deitada entre mim e o encosto do sofá, já roncando, se levantou, andou um pouco e voltou. Subiu em cima de mim e começou a latir, me senti uma péssima ouvinte.
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