Combinamos que não era amor. Escapou ali um abraço no meio da noite, mas aquilo ali foi sono, não sei o que foi aquilo, talvez tenha sido inércia do amor que está no ar mas não necessariamente dentro de nós.Só estamos aqui, reunidas nesse momento, porque temos duas coisas muito simples em comum: nada melhor pra fazer. Só isso. É o que está no contrato. E eu assino embaixo. Melhor assim. Muito melhor assim. Tô super bem com tudo isso. Nossa, nunca estive melhor. Mas não faz isso. Não me olha assim e diz que vai refazer o contrato. Não faz o mundo inteiro brilhar mais porque você é boba. Não faz o mundo inteiro ficar pequeno só porque você faz com que eu me sinta única. Não deixa eu assim, deslizando pelas paredes do chuveiro de tanto encanto porque seu cabelo fica lindo molhado. Não transforma assim o mundo em um lugar mais fácil e melhor de se viver. Não faz eu ser assim tão absurdamente feliz só porque eu tenho certeza absoluta que nenhum segundo ao seu lado é por acaso.
Combinamos que não era amor e realmente não é. Mas esse algo que é, é realmente muito libertador. Porque quando você está aqui, ou até mesmo na sua ausência, o resto todo vira uma grande comédia. E aquela menina mais nova, e aquela outra mais velha, e aquela outra que escreve, e aquela outra da ligação, e aquela outra divertida, e aquela outra do bar, e aquela outra amiga daquela outra. E todas aquelas outras viram formiguinhas de nariz vermelho. E eu tenho vontade de ligar pra todas elas e falar: putz, cara, e você acha mesmo que eu (um dia) me interessaria por você?! Coitada.
Adoro como o mundo fica coitado, fica quase, fica de mentira, quando não é você. Porque essas coitadas todas só serviram pra me lembrar o quão sagrado é não querer tomar banho depois. O quão sagrado é ser absurdamente feliz mesmo sabendo a dor que vem depois. O quão sagrado é ver pureza em tudo o que você faz. O quão sagrado é abrir mão de evoluir só porque andar pra trás é poder cruzar com você de novo.
Não é amor não. É mais que isso, é mais que amor. Porque pra te amar mais, eu tenho que te amar menos. Porque pra morrer de amor por você, eu tive que não morrer. Porque pra ter você por perto um pouco, eu tive que não querer mais ter você por perto pra sempre.
E eu soquei meu coração até ele diminuir. Só pra você nunca se assustar com o tamanho. E eu tive que me fantasiar de 'pegadora', só pra ter você aqui dentro sem medo. Medo de destruir mais uma vez esse amor tão santo, tão virgem. E eu vou continuar me fantasiando de não amor, só pra você poder me vestir e sair por aí com sua casca de não amor. E eu vou rir quando você me contar das suas histórias. E eu vou continuar sendo só daqui pra fora. Porque no nosso contrato, tomamos cuidado em escrever com letras maiúsculas: não existe ninguém aqui dentro.
Mas quando, de vez em quando, o seu ninguém colocar ali, meio sem querer, a mão na minha coxa, só para me enganar que você é minha dona. Só para enganar a garota da mesa ao lado que você é minha dona. Eu vou deixar. Vai que um dia você acredita.
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